Gary Binberg, mediador de disputas comerciais: ‘O Brasil está diante do espelho’

Gary Binberg, mediador de disputas comerciais: ‘O Brasil está diante do espelho’

Consultor americano veio ao Rio para dar um curso de resolução de conflitos entre empresas a convite da Câmara de Comércio França-Brasil

por Fabiano Ristow

23/05/2016 6:00

“Tenho 57 anos, nasci e fui criado em Minneapolis, no estado de Minnesota. É um dos lugares mais frios dos Estados Unidos. No inverno, faz -40ºC. Gosto de pensar que de lá eu trouxe a mentalidade de um povo respeitoso, uma característica importante para a minha profissão atual”.

Conte algo que não sei.

Todo mundo é igual. Todos se sentem ameaçados em situações em que podem perder alguma coisa. Todo mundo tem inseguranças, mas também a capacidade de transformar a própria mente. A dinâmica é sempre a mesma, porque brasileiros, japoneses e americanos são seres humanos, independentemente de cultura, religião e gostos pessoais. Esse é um discurso que pode parecer óbvio, mas dificilmente pensamos nele em termos socioeconômicos, numa mesa de mediação.

O que leva empresas a entrarem em conflito?

É muito comum haver quebra de contrato. O interessante é que cada um dos lados tem os seus direitos definidos no próprio documento ou por lei. Uma parte pode estar certa e passar anos no tribunal até ganhar, mas perderá milhões de reais no processo. É aí que entra a mediação: será que existe uma alternativa melhor?

Há um argumento infalível?

Algumas das perguntas que faço são: quanto o processo vai lhe custar? Está preparado para o desgaste emocional? Quanto tempo vai sacrificar da gestão da sua empresa para tratar desse pepino? Você é pago para brigar ou gerenciar um negócio? Isso cola!

Então é só falar em dinheiro…

Exato. Outro exemplo: uma briga entre entre um fornecedor e um cliente. Então digo: para que brigar? Vocês terão que trabalhar juntos depois. Melhor resolver de forma amigável em vez de lutar como gladiadores.

O senhor não deixa de recorrer ao lado emocional.

Temos que enxergar qualquer caso sob uma dinâmica psicológica e emocional. Presidentes de grandes empresas públicas têm ego investido em tudo o que fazem. É importante ver onde esse ego se aplica no conflito, para convencer o cliente.

O senhor se considera conhecedor da natureza humana?

Acabei de ouvir uma pessoa perguntando a uma advogada sobre o uso de videoconferências em mediações. Mordi minha boca para não me intrometer e responder: “Não faça isso!” No início, insisto em ter todas as partes juntas, ao vivo, olhando nos olhos. Antes da mediação, converso com os advogados de ambos os lados para ter uma ideia da natureza e dinâmica das pessoas. Às vezes peço para que as pessoas, e não os advogados, expliquem o que aconteceu. Aí identifico seus pontos sensíveis.

Qual a taxa de sucesso?

Superior a 80%.

Leva o aprendizado profissional para a vida pessoal?

O mediador deve ser neutro. Mas, quando chego em casa e minha filha de 17 anos pede algo absurdo, perco a paciência, pois não sou neutro em relação a ela. Mas me acalmo e lembro da disciplina que desenvolvi por tantos anos.

O que acha dos empresários brasileiros?

Brasileiros são fortes em suas convicções e não têm pudor em mostrá-las, para o bem e para o mal. O entusiasmo de vocês é uma qualidade. Ouço coisas como: “Não sairei daqui até conseguir o que quero!” Mas, dando oportunidade para que falem e ouçam, ficam mais abertos.

Se fosse mediador do povo brasileiro, que conselho daria?

Em vez de lutarem entre si, vocês deveriam estar contentes com o fato de o país estar passando por um momento de reavaliação e questionamento. O resultado não importa tanto quanto o processo. Todos queremos uma sociedade mais produtiva e o fim da corrupção. O Brasil está diante do espelho, decidindo se gosta ou não do que está vendo.

Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/gary-binberg-mediador-de-disputas-comerciais-brasil-esta-diante-do-espelho-19347653

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