Mediação é o caminho: filho encontra pai aos 19 anos após buscar Defensoria Pública

Mediação é o caminho: filho encontra pai aos 19 anos após buscar Defensoria Pública


Por Graciane Sousa- Cidadeverde.com
redacao@cidadeverde.com

 

Em um mundo onde algumas pessoas acreditam que é preciso dar um reset[zerar e começar  tudo de novo] expressões de afetividade têm ainda mais impacto. Há quatro anos, o Núcleo de Solução Consensual de Conflitos e Cidadania (Nuscc) da Defensoria Pública do Estado do Piauí (DPE-PI), resolve litígios relacionados a questões familiares e, mais que isso, reconstrói relações baseadas no respeito, em uma sociedade tão necessitada de amor ao próximo.

O Nuscc atua para que conflitos de família, tais como dissolução matrimonial, pensão alimentícia, entre outros, não sejam judicializados. E foi, justamente, em uma dessas audiências que o estudante Victor Gabriel, 21 anos, conheceu o pai. Assim que completou a maioridade, o jovem procurou a Defensoria Pública para reconhecimento de paternidade. Só assim, quando estava prestes a completar 19 anos, pôde abraçar seu pai pela primeira vez. 

Às vésperas do grande dia, Victor relembra que ficou sem dormir. 

\"Tinha muita vontade de conhecê-lo e dois dias antes da audiência fiquei sem dormir. A espera de toda minha vida, se resumiu em cerca de duas semanas, que foi o tempo que dei entrada na Defensoria até ser marcada a audiência. Foi muito rápido. Eu estava muito apreensivo. Assim que chegou a resposta, entrei para marcar o dia, saber quando era a audiência. Eu queria saber como ele era, quanto eu era parecido com ele, com o que trabalhava, a família como era, o que a gente tinha em comum\", disse o estudante. 

 

Já o pai, Benildo Lima, lembra do dia em que recebeu a intimação que transformou sua vida. O técnico em Telecomunicações- que também cresceu sem a presença do pai- ressalta que, por inúmeras vezes, procurou por Victor, porém sem sucesso. 

\"Fui na defensoria saber o que era aquela intimação e ao chegar lá me disseram que era um reconhecimento de paternidade. Daí eu disse: já sei o que é. Nossa é meu filho! Fazia tempo que procurava esse cara, doido para conhecê-lo. Contei que tive um problema com a mãe dele, mas sempre busquei vê-lo, mas não consegui. Quando a defensora e mediadora me disseram a data da audiência, perguntei se não podia antecipar. Foi uma alegria muito grande, pois sempre quis estar perto dele\", disse o técnico em Telecomunicações. 

Tamanha a felicidade de Benildo por ter encontrado o filho que o reconhecimento de paternidade se deu sem a necessidade de exame de DNA. Por questões familiares, os dois viveram longe um do outro por quase duas décadas. 

\"Eu sempre o procurei, inclusive pelas redes sociais, desde quando nasceu, mas me bloquearam e não pude acompanhar o crescimento dele. Até porque não tive pai e sei a falta. Graças a Deus que o Victor me procurou e estou aqui para ajudá-lo como pai e o reconheci como filho. Foi até muito engraçado porque no dia da audiência, a defensora disse: então, vamos marcar o exame de DNA. Eu falei: não precisa, tenho certeza absoluta que ele meu filho\", relembra Lima. 

Além do pai, o estudante ganhou também dois irmãos e a certeza que sempre terá um \"ombro amigo\". Benildo Lima descreve a sensação de ser papai de \"um homem já feito\".

\"Tive que conviver com o jeito dele, não é mais uma criança que vou conduzir, é um homem feito que tem seus gostos e tive que me adaptar. Trouxe mudanças em minha vida como me preocupar com o dia do aniversário dele. Hoje, a gente vive muito bem. Isso tem feito um bem gigantesco. Me sinto feliz e realizado porque o bem maior da minha vida está ao meu lado: meus três filhos\", diz emocionado o técnico em Telecomunicações que, com a descoberta de Victor, resolveu retomar os estudos aos 47 anos para motivar os filhos. 

\"Na vida, nada é fácil. Tudo é conquistado com batalha. Caráter e personalidade leva qualquer homem a qualquer lugar, seja na empresa, seja na vida social. A educação é um cartão de visita  e saber que meus filhos são educados é uma gratificação gigantesca. Quando um relacionamento não dá certo, o melhor é sentar e conversar. Se não conseguir resolver, cada um deve tomar um rumo sensato para que não aconteça nada. Com a ausência do meu pai, tive que crescer rapidamente, pular minha juventude para aos 14 anos trabalhar e ajudar em casa. Por isso, sempre quis assumir meu filho. Quando ele me chamou de pai, foi algo inexplicável\", disse Benildo Lima. 

 

Questionado se tem orgulho do pai, Victor desabafa: \"Tenho muito orgulho dele por nunca ter desistido de mim, por tudo o que ele passou. Sinto muito orgulho dele\", disse o estudante. Por outro lado, o pai não resume as palavras. 

 

\"Eu gosto de tudo nele. Já passamos dois dias dos pais juntos e muitos momentos especiais. Ainda não viajamos juntos, mas são sonhos que quero realizar logo logo. Ainda estou vivendo isso\", disse Lima. 

 

Entre tantos pontos em comuns, Benildo e Victor compartilham também o sentimento de gratidão pela DPE-PI.

\"Fui na Defensoria pedir ajuda sem muitas expectativas. Me surpreendi porque fui muito bem acolhido. Foi decisivo ter ido na Defensoria e hoje tenho um pai\", disse Victor Gabriel que em breve se chamará de Victor Gabriel Lima. 

\"Pra mim é maravilhoso a Defensoria existir. Se não fosse através dela, ele nunca ia chegar até mim. A Defensoria mudou a nossa vida, hoje ele frequenta minha casa, tem o amor dos dois irmãos que são loucos por ele. Isso, eu agradeço a Defensoria pois hoje eu não estaria assim. Aliás, poderia até estar, mas não seria tão fácil assim. A Defensoria simplificou esse elo entre nós dois, nos aproximou. Um pai na vida do filho é tudo. O Victor trouxe pra mim muitas coisas maravilhosas até em relação com os irmãos dele, de 13 e 20 anos, com os quais tenho uma relação muito mais próxima. O melhor de tudo isso é estar com ele agora, poder fazer parte da vida dele, fazer parte dessa história que começamos agora\", conclui Benildo Lima. 

 

MEDIAÇÃO: UM CAMINHO SEM VOLTA

A experiência de, finalmente, conhecer o pai é uma situação vivenciada com frequência por defensores públicos e mediadores do Núcleo de Solução Consensual de Conflitos e Cidadania (Nuscc) que surgiu com a ideia de fomentar a mediação, ou seja, fazer com que as partes cheguem a uma solução por conta própria. A experiência tem sido exitosa. Em 71,5% dos casos, as partes saem satisfeitas e aquele caso não é judicializado. 

\"A gente percebia que, às vezes, se resolvia o processo, mas o conflito continuava. Acabava a audiência, fechava-se a porta e as pessoas já começavam a brigar de novo, ou seja, a gente resolvia o processo, mas não o conflito. Nesse aspecto que veio a mediação, porque as partes contribuem para a solução do conflito, não foi o juiz que impôs a vontade da lei, isso tem um reflexo maior para o futuro. As partes cumprem o que acordaram por espontânea vontade. Então, o Nuscc surgiu dessa necessidade\", explica o defensor público Gérson Henrique da Silva, coordenador do Nuscc. 

 

Os casos encaminhados para o Nuscc passam por um processo de triagem na Defensoria Pública. Na sequência é enviada uma carta-convite para que as partes tenham a oportunidade de resolver o conflito familiar sem necessidade de ingressar com uma ação judicial. 

 

Sobre o alto grau de resolutividade dos casos, a defensora pública auxiliar do Nuscc, Alynne Patrício, diz que a justiça conciliatória é a justiça do séc. XXI. 

 

\"Eu sou uma entusiasta da mediação. Nossa cultura é a do litígio, ou seja, fomos criados para achar que a gente tem que brigar, que tem que ganhar o processo. Então, a gente está desconstruindo essa cultura de que apenas o Judiciário pode ser a solução dos conflitos. O Judiciário está abarrotado. Para se ter uma ideia, já fui intimada para audiência em 2020. A pessoa ter que esperar até 2020 por uma audiência, passar esse tempo todo sem dar um abraço no filho, por exemplo, quando ela mesma tem a oportunidade de sentar e resolver seu problema\", disse Alynne Patrício que atua como defensora pública há 15 anos. 

Gérson Henrique também é um entusiasta da justiça conciliatória e diz que é \"um caminho sem volta\". 

\"O caminho é a mediação, essa solução extrajudicial é a mais eficaz. A mediação veio para ficar, é um caminho sem volta. O Judiciário está muito sobrecarregado de processos e às vezes, o processo acaba, mas o conflito perdura. A mediação quer resolver justamente esse problema, para que as partes cheguem a um consenso. O mediador não está ali como um juiz para impor a vontade da lei, mas sim para ajudar  as partes a terem um maior diálogo e elas mesmo resolverem o conflito\", disse o defensor público. 

Alynne Patrício explica que a homologação do acordo extrajudicial, mesmo sem ser judicializado, gera uma sentença que deve ser cumprida pelas partes. 

\"Tudo o que for resolvido vai gerar uma sentença que, se for descumprida, gera prisão, no caso de execução de alimentos,  gera multa, entre outros. É só um procedimento extraprocessual, mas tem eficácia. O Código de Processo Civil diz que o título executivo extraprocessual tem a mesma eficácia do título judicial\", reitera a defensora. 

No Piauí, mais da metade dos casos que chegam à Defensoria Pública, tanto na capital como no interior são relacionados a conflitos familiares: divórcios, separação de união estável, guarda, entre outros. No Nuscc, em 2018, foram realizados mais de 3 mil atendimento em geral, que compreendem o agendamento das sessões e mediação e a conciliação. 

OFICINA DE PAIS E FILHOS

Em uma das salas do Cenajus, situado no centro de Teresina, funciona o Centro Judiciário de Soluções de Conflitos e Cidadania (Cejusc), onde ao fim de cada mês, acontece a oficina de Pais e Filhos, projeto do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), desenvolvido no Piauí pela  Defensoria Pública. 

No caminho até a sala onde acontece a oficina, placas com frases como \"tenha gratidão\", \"tenha empatia\" e \"tenha fé\", são indicativas de que os assistidos pela Defensoria  terão alguém como quem contar. Da oficina, participam mediadores e defensores públicos que atuam no projeto como voluntários. 

\'\'Muitos assistidos da Defensoria só querem ser ouvidos. Às vezes, a pessoa já pegou tanta porta na cara, já foi tão maltratado em outras instituições. Por isso, a gente tenta humanizar o atendimento, de dar ouvidos aos assistidos que já estão em uma situação de fragilidade emocional e querem ser ouvidos. Fazemos o papel de defensor público, do assistente social, do psicólogo para tentar solucionar aquela situação. Me sinto realizado com meu trabalho. Poder trabalhar ajudando as pessoas é a melhor coisa do mundo\", disse o defensor Gérson Henrique. 

A oficina é voltada para pais e filhos [que, inicialmente, participam em momentos diferentes para evitar conflitos]  e também para qualquer pessoa da sociedade que esteja disponível para ouvir, compartilhar experiência, ajudar a si e ao próximo. No encontro são exibidos vídeos, depoimentos de casos de crianças que sofreram com a separação dos pais, no intuito de levar à reflexão sobre a problemática. Em algumas das oficinas, pais que não tinham diálogo com os filhos voltaram a conversar.

Rosângela Ribeiro de Alexandrino, mediadora do Nuscc e coordenadora da oficina, é o reflexo de empatia e amor pelo que faz, características imprescindíveis para lidar com pessoas em situação de conflito. Questionada sobre o que é  ser uma mediadora, ela responde com um sorriso no rosto: \"é transformar, esperançar\". 

\"Ser mediadora é transformar. Vem de dentro para fora. Me sinto muito feliz. Com a mediação, conseguimos trazer esperança. As pessoas veem a Justiça como algo muito distante, utópico. A mediação pra mim é uma esperança, mas dinâmica. Aqui, as pessoas são empoderadas a transformar suas vidas. Elas chegam aqui com um processo que não anda, não acreditam mais e saem transformadas, porque elas próprias construíram uma solução. A mediação, para mim, é esperançar\", disse a me \"Na oficina de Pais e Filhos, tanto os defensores quanto os mediadores são voluntários. A gente faz por paixão, porque acreditamos neste trabalho. Vale à pena estar neste trabalho porque é algo transformador. As pessoas chegam de um jeito e saem de outro. A oficina transforma as pessoas porque elas se veem, se identificam com o que nós falamos e apresentamos, trocam experiências, falam de suas vidas e reconhecem que pisaram na bola. A oficina gera uma reflexão. As pessoas saem daqui com uma \'sementinha plantada\' e isso me transforma como pessoa. Venho para cá satisfeita, por estar ajudando pessoas\", completa Rosângela Ribeiro.

Sem formalidades, o defensor público Gérson Henrique frisa que a oficina é direcionada para pais em processo de separação, mas vale para qualquer relação humana. 

\"Hoje o mundo está uma loucura. A gente não tem mais tempo para parar, para conversar com os próprios filhos. Costumo dizer que a internet aproxima quem está longe, mas afasta quem está perto. Na oficina de Pais e Filhos, a gente percebe muito isso, que a falta de diálogo leva a muitos conflitos. A gente tem uma parte específica que fala sobre a comunicação não violenta, só a forma de se dirigir a outra pessoa já pode gerar um conflito, de modo que se você  tivesse uma outra forma de abordagem, poderíamos evitar muitos conflitos\", acrescenta o defensor. 

AMOR PELA PROFISSÃO

Em comum, defensores públicos e mediadores que foram o Nuscc compartilham também a gratidão em ajudar o próximo. Assim como a história de pai e filho que se reencontraram após quase duas décadas, Alynne Patrício contabiliza inúmeros casos que tiveram um final feliz. \"Tiveram casos em que conseguimos uma casa com a mediação, pois com o diálogo, a outra parte cedeu. Os depoimentos das partes dizendo que a Defensoria ajudou na solução daquele problema são maravilhosos, principalmente, envolvendo crianças. Muitas crianças sofrem  com os conflitos dos pais e a gente tem a oportunidade de resolver. Para se trabalhar com direito de família tem  que ser muito apaixonada. Os conflitos são muito viscerais, as pessoas estão sofrendo, envolve relacionamento amoroso e tem o lado emocional. Os defensores são apaixonados pelo trabalho porque conseguimos ajudar o próximo. É gratificante quando a gente consegue ajudar essas pessoas, em que muitas vezes todas as outras \'portas\' fecharam, e elas só encontram uma oportunidade na Defensoria\", disse a defensora pública. 

DEFENSORIA QUE INSPIRA

Lara Andrade Lopes participou de uma das oficinas de Pais e Filhos como estudante de Direito e diz que se inspira no trabalho da Defensoria Pública do Estado do Piauí. O sonho dela: ser defensora pública. 

\"Costumo associar a Defensoria à filantropia, minha mãe é professora. Então, costumo dizer que quem é professor e quem é defensor, não tem só aquela profissão única e exclusiva. É um pouco de psicólogo, amigo, tem um colo mais acolhedor. A Defensoria me atrai muito pelo sentimento de acolher, conversar,. Às vezes, a gente pensa  acha que é um problema gigante, mas conversa com uma terceira pessoa, um profissional que vive aquilo no dia a dia, pode resolver de uma maneira mais simples, que é o caso da mediação. Às vezes, a gente transforma algo tão pequeno em um boom gigante e depois não consegue mais controlar. Já a mediação consegue conter tudo isso\", disse a estudante de Direito. 

Questionada sobre a imagem que tem da Defensoria, Lara não mede palavras. 

\"Se eu tivesse que desenhar a Defensoria, desenharia um abraço. Dois bracinhos em volta de um  grupo de pessoas. Acho que aquele símbolo das pessoas de mãos dadas é perfeito. É incrível o poder que uma palavra e um abraço fazem na vida do ser humano. Para mim, a Defensoria é um órgão empático, é a união de várias pessoas\", conclui a estudante de Direito.

REPOST - Texto e imagem: https://cidadeverde.com/noticias/298657/mediacao-e-o-caminho-filho-encontra-pai-aos-19-anos-apos-buscar-defensoria-publica

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